Os pintores, para falar só deles, estando mortos e enterrados,
falam à geração seguinte ou a várias gerações seguintes por
suas obras. Isto é tudo, ou há ainda algo mais? Na vida de um
pintor, talvez a morte não seja o mais difícil. Eu confesso não
saber nada a respeito, mas a visão das estrelas sempre me faz
sonhar, tão simplesmente quanto me fazem sonhar os pontos
negros representando cidades e aldeias num mapa geográfico.
E eu me pergunto por que os pontos luminosos do firmamento
nos seriam menos acessíveis que os pontos negros do mapa da
França? Se tomarmos o trem para ir a Tarascon ou a Rouen,
tomamos a morte para ir a uma estrela. O que certamente é
verdadeiro neste raciocínio é que estando na vida nós não
podemos ir a uma estrela, assim como estando mortos não
podemos tomar o trem. Enfim, não me parece impossível que a
cólera, as pedras, a tísica, o câncer, sejam meios de locomoção
celeste, assim como os barcos a vapor, os ônibus e a estrada de
ferro são meios terrestres. (Carta 596)